domingo, setembro 10, 2006

Monólogo uterino


Naqueles olhos de promessa... ai, como eram cheios de aventura e êxtase por sobre os ombros insinuantes, languidamente insinuantes ombros que por sua vez escondiam-se sob cachos fartos, dourados, anelando toda e qualquer fantasia dessa mulher numa espiral de narcisismo sem par. Sabia amar. Nada lhe faltava. A não ser, porém, o porém da perfeição, cláusula esta que atende aos critérios de um romântico idealista de merda: a ela e seus cachos de deitar inveja à Santa Clara faltava apenas aprender a expandir a capacidade pulmonar.

A imagem na cabeça do macho que lhe falava esta indecência aos ouvidos era a de um cabresto. E o macho um diabo à la Magritte, com o cabresto no lugar do chapéu que na cabeça do pintor lhe faria as vezes de cabeça.

Amar, Libertae eroticus que canta ao sol de todo o dia. Arde a fêmea ao sol de todo o dia sem cabresto e sem soutien-gorge. Porém parece que a golpes de parecer correr, ela foge do fôlego de uma vida, dessas cuja veia lateja na expansão da capacidade de seus pulmões, Fei em chinês, o sopro vital de um homem só e primordial que pelo pescoço lhe abateria numa mordida, uma só, ali bem na nuca, pra dominar... a cabrita. Bem ali, na nuca, entre dentes.

Foi no chão da sala - sempre no chão de uma sala -, e ele - sempre o mesmo -, entre dentes, confessou a impossibilidade de tradução do que sentia ali no chão da sala. Desde então, desde outros dele, os cachos e a mulher então moça cresceram acumulando testemunhos das manifestações deste atavismo.

1 Comments:

Anonymous chi said...

(...) para colocar cabresto nesta cabrita, o macho é que precisa de muito fôlego. É preciso muito Fei para descrever o atavismo de forma tão poética. Bravo! Liberdade vigiada ou cabresto literal, não vivemos sem eles - e o que alimenta? - este romântico idealismo de merda! Mandou bem!

1:03 AM  

Postar um comentário

<< Home