Sábado, Novembro 07, 2009

sol em leão, lua em câncer, ascendente em libra

...e a senhorita, diante da expectativa da platéia, respondeu: "Se eu tivesse que vos dizer o que me vem agora ao pensamento, nesse momento em que um sorriso se arvora em meu rosto, supostamente sem mais nem porquê, eu vos confesso: eu diria 'que bom'. Sem exclamações".
A senhorita, solene, vinha andando contente com a vida que levava.
Para ela, tudo não passava de um eterno gerúndio e sempre ao se lembrar disso que pensava era obrigada a considerar também o caráter de sua sorte: ela era boa. Bem boa. Pois gozava e sofria, sem achar nisso nada demais além do que era: sensações provenientes de uma dada conjuntura, a sua, a de um momento em meio a todo esse incomensurável manancial chamado experiência humana.
Era humilde. Seu talento era para encenar a sua própria vida. Não confundia-se com Antígonas, Medéias ou Madames Bovarys.
A senhorita, frequentadora de ruas, bazares e salões, era uma jovem. Uma jovem burguesa, uma jovem profissional, uma jovem mulher de seu tempo. Com apenas um distintivo: não se achava especial. E além do mais ela ria. E assim, quando chorava, a senhorita desaguava, pois sabia o que era a felicidade.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Silêncio

Já não sei mais distinguir amor e ódio. Vulnerável demais às palavras, só tenho olhos para o que não fala. "Amor". "Ódio". São palavras o que define o meu estado de espírito. E nesse momento eu não sei distinguir o que sinto, se sinto, pois comigo só há árvores e essa soberana lua cheia sobre o jardim. E o termômetro, que marca 07 graus em uma noite de outono.

Sexta-feira, Março 27, 2009

Cherichard

"Iracêmah...". Ouvi ontem na secretária eletrônica, antes de você morrer. "Iracêmah..." de novo hoje, após saber o que houve com você. Deixar de existir de uma hora para outra ainda que se continue existindo na gente. Agora é você quem me força a encarar essa: eu não posso fazer nada. Coloquei a última dose do uísque no copo, Richard! Isso eu ainda posso fazer, por você, por competência e por direito. Estou na França, não no Afeganistão. Richard, seu louco varrido: vá. Mas vá com tudo! Como sempre, meu amigo.

Quarta-feira, Março 11, 2009

dízima periódica

Nascemos um corpo. Recebemos um nome. Para morarmos, um lugar; quando muito, um endereço. Na cidade ou no deserto, atravessamos ruas ou fronteiras. Nômades ou sedentários, tudo indica que seguimos com uma identidade. Uma. Ilusão. Uma. Ilusão.

No decorrer das horas, dias. Humanizados, na linha do tempo, percorremos eras. Faz horas que não sou mais. Eu somos. Penso, logo não sou mais. Estou. Estamos.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

McLuhan revisitado

A comunicação é o fenômeno paradigmático dos seres vivos. No gênero humano, inventamos sinais de fumaça, telégrafo, bandeiras, assobios, internet. Para franquear a transmissão descobrimos ondas, bricolamos abanos, sopramos. Conforme avançamos em tecnologia de ponta, mais invisíveis se tornam as redes - wi-fi - e mais individuais os instrumentos - ipod. As grandes agências - correios, redações de notícias, guichês de companhias aéreas - estão cada vez mais entregues às moscas. Num click, de casa, enviamos a mãe para a China. Eis o drama. De casa, num click, esperamos também, com a mesma velocidade e voracidade, respostas imediatas para todos os nossos males. Por isso, saiamos rumo a padaria para comprar o pão das seis! A atitude prosaica é altamente indicada nos dias que correm. Pois correm tanto que já me sinto em um contínuo jet lag.

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

tato

Nesses dias todos meu corpo esteve só. As relações eram feitas de palavras. E, ainda mais, o frio intenso, me deu a sensibilidade necessária para compreender, hoje, o quanto o toque, a lambida, um gesto ou um ato que encosta, é fundamental na formação de qualquer bicho.

Sinto-me só. Sinto-me só sem a espontaneidade de um toque em minha pele. Seja ele o aperto de mão, seja o toque que for. Mas não toco em nada. Aqui há o frio, as luvas. No mercado há agora um recipiente onde o caixa deposita o troco. Nem ali, nessa banalidade mais absoluta da vida moderna feita de uma troca comercial mediada pelo 'troco' em um caixa de supermercado, nem ali há possibilidade de toque.

E ainda há as luvas, os gorros e o frio. Apesar disso, as pessoas aqui não aprenderam o abraço. Nem sonhar aquele abraço demorado e balançado. Aqui há a densidade do frio e da politesse.

Je m'en fou mas em todo caso a vida continua e eu devo, pelo menos, botar o pau na mesa. Agora, sem abraço, sem calor, sem carinho, não tenho nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nadanada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada a perder. Minhas palavras tornaram-se selvagens, incivilizadas, apesar de minha natural elegância.

Desencanto a cada dia que passa.

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009

Frio

Abro a janela redonda da morada de me cabe. É noite. Fumo um cigarro ali para não empestear a casa. Faz silêncio. Só ouço o vento, as folhas, que por causa dele se esfregam, e mais nada. A cúpula celeste se esconde por trás de um tempo fechado iluminado, do alto, por uma lua cheia que se despede. Faz frio, e eu fumo o meu cigarro na janela semi-fechada sobre o meu corpo, de modo a proteger o calor artificial da casa.

Penso naquele que não tem calor por não ter casa. Penso naquele que não conhece ou há muito não tem o calor de uma casa. Vivo o silêncio e o frio, enquanto fumo o meu cigarro, pensando na absurdidade desse frio ainda sentido à pelo nos dias em que, do lado de dentro, me beneficio de uma casa cheia de eletricidade.

Com meio corpo para o lado de fora, desafio o tempo para ver até quando suportarei esse frio. É o tempo de um cigarro. Melhor dizendo: o cigarro é um pretexto, para mim, para encarar esse frio.

E pensar que há aqueles que não têm escolha: é o frio, apenas o frio, sem cigarro, sem birita, sem escolha. O Frio. frio seco sem silêncio. Cheio de ais.