domingo, novembro 29, 2015

poema de extensão

Projeto de Transas - PROTRANS-MEC 2016
POLIMIX - renovação urbana e economia solidária na Praça Tiradentes
Justificativa:

Praça Tiradentes. Polimix. Caminhão de concretagem. Três horas da manhã. Tarde, ainda. Polimix. - Aí, olha isso: Polimix. Foto, riso, foto, foto, cu, bunda, peito. Polimix! Polimix! Polimix! Permissão Estendida. Projeto de extensão. Permissão estendida. Para fora e para dentro. Uma transa. Projeto de transas.
Coordenadora: Mme. Fanny, Laboratório Miami Bitch-UFRUA (Universidade Federal da Rua).

POLIMIX e outras transas

Praça Tiradentes. Polimix. Caminhão de concretagem. Três horas da manhã. Tarde, ainda. Polimix. - Aí, olha isso: Polimix. Foto, riso, foto, foto, cu, bunda, peito. Polimix! Polimix! Polimix! Permissão Estendida. Projeto de extensão. Permissão estendida. Para fora e para dentro. Uma transa. Projeto de transas.

domingo, junho 28, 2015

O exílio

Preciso dar um passo atrás, bem atrás do que vivi para alcançar o que sei, não o que conheci. O exílio dos brasileiros durante a ditadura é duração que me intriga, é referência para a minha geração e para a geração de meus alunos. Tenho 40 anos e faço 41 nesse 2015. Papai acha que o período militar foi tempo de progresso no país. Ele, jovem pai de 4 crianças, engenheiro, cumpridor de suas tarefas. Política era outro assunto. Papai sempre foi técnico. E amoroso a seu modo. Lacônico, pragmático. Segundo mamãe, omisso. "Nunca trocou uma fralda", ela diz. E no entanto os dois vivem juntos há 50 anos, nesse 2015. Recentemente vi os dois comemorarem as bodas de ouro em uma capelinha na cidade de Conservatória. Chorei naquela noite ao ver meus pais se casarem 50 anos depois, com filhos e netos, todos frequentadores das dificuldades de todo e qualquer relacionamento. Todos ali. Essa é a minha história. Singela.

Mas a ditadura. Quando ouvi falar dela pela primeira vez acho que foi dentro de casa e na voz de papai. Se não foi isso, ok, mas foi isso o que até hoje é um marco para mim: papai falando da ditadura como um apoiador daquele período em que ele, provedor, pai de família, engenheiro, achava que levara uma vida mais tranquila em um período "insustentável", de tantas perturbações no mundo da política, esse mundo que ele não frequenta, a não ser para apoiar, de tempos em tempos, um ou outro candidato através do voto depositado numa urna.

Hoje vi o filme "Em teu nome". Pensei nos meus colegas, professores do instituto onde trabalho. Parecia que o filme falava da trajetória deles como exilados. Parecia que o filme falava do germe dos cursos onde leciono (planejamento urbano e gestão pública para o desenvolvimento econômico e social). Esse filme sai do Brasil, vai para o Chile; sai do Chile, vai para a Argélia; sai da Argélia, vai para a França; e da França, sai para voltar ao Brasil.

O exílio. O exílio sofrido, o exílio vivido. Quem mais bem falou dele para mim em todos os tempos foi Paulo Freire. Aquém de todo e qualquer estereótipo que desde então passou a ser construído sobre as experiências naquelas circunstâncias, Paulo Freire escreveu:

"Me parece oportuno salientar que cada exilado reage, sofre, cresce, supera dificuldades de forma diferente. Cada exilado experimenta o exílio à sua maneira. Só uma coisa é igual para todos os exilados e exiladas: estarem ou encontrarem-se num contexto de empréstimo, longe de seu contexto original." ('Gestão democrática', in À sombra desta mangueira, p.87).

Meus alunos sempre transformam os momentos de grande contestação políticas atuais em arremedos da época ditatorial, sobretudo através de referências estéticas. Aquele foi mesmo um grande momento, em vários aspectos. Mas me causa certo desconforto esquecer o presente. Não ver o presente e não vivê-lo plenamente com a sua estética própria, ainda que seja necessário criá-la.

Eis um legado da glória combativa de meus compatriotas que, ressignificado, me causa tristeza. Estaríamos vivendo um vazio, necessitando "repaginar" experiências do passado para legitimar - mais do que dar sentido, legitimar - as experiências contemporâneas? Por que acionar o legado do período ditatorial para falar das mazelas do hoje, do aqui e do agora?

Não vou pegar em armas. Não posso dizer o que faria se estivesse vivendo os ditos anos rebeldes, posso inventar uma resposta e mudá-la amanhã, se quiser. Não é essa a questão. A questão é: há pobreza estética nos dias de hoje? Sim. O mercado visibiliza essa miséria, embora haja riquezas muitas por aí, justamente onde não existe a pretensão da universalidade ontológica. A estética atual é uma autopsicanálise insossa que, ao alcançar meus sentidos, faz com que eu me sinta fora do meu tempo.

Sei lá. Será que isso me torna vulnerável? Não saber o que mais dizer, a não ser esse incômodo com as formas de representação da suposta rebeldia atual? Exílio.

quinta-feira, junho 25, 2015

Feminismo radical

Saber que o homem brocha, e enternecer-se.

sexta-feira, junho 05, 2015

A Felicidade

A felicidade é algo assim, tão bonito, mas tão bonito e tão gostoso e tão bom que a gente às vezes nem sabe que está sendo feliz. E assim, por não saber, a gente vive jogando a felicidade fora pela janela ou até mesmo à pontapé. A gente faz isso com a felicidade porque ela nunca diz a hora em que vai chegar. Ela tem essa mania e a gente aprende uma etiqueta para se comportar direitinho e acaba achando que a felicidade não é o que se vive. Não é que ela não seja comportada. Nem que seja mal-comportada. A felicidade não se comporta de modo algum. A felicidade não diz nada, nem se mexe. A gente é que se comporta dentro ou fora, com ou sem felicidade. Porque é como a gente respira, ou enxerga, ou ouve que a gente sente felicidade. E é muito comum que a gente dê pinta de não entender a felicidade quando a gente abre a boca. Quando a gente abre a boca a gente pode liberar o engano ou até mesmo a cegueira, porque é na fala que se vê que se é cego. E para falar é preciso respirar, antes de qualquer coisa. E o modo como se respira faz sentir se a felicidade está pairando. No mais das vezes, contudo, a felicidade é soprada fora, porque a gente não aprende. A gente não aprende que a felicidade é sutil e que quando se sente ela a gente fica forte. Mas, quando com os sentidos embutidos, a gente escurraça ela. Tadinha da felicidade...

domingo, abril 19, 2015

o próximo

Ajudar, só ao próximo.
Nunca o próximo.
Só o próximo existe.
Não ao próximo.

domingo, abril 05, 2015

diagnóstico

contrariedade
incapacidade de esperar
o mundo contra mim
eu em tensão pré-menstrual
eu contra o mundo

até que cai a primeira gota de sangue
e eu fico bem de novo

quinta-feira, abril 02, 2015

ser mulher - notas íntimas sobre um capitalismo de gênero

Assunto para lá de velho, mas nunca obsoleto. Agora quero eu falar disso do ponto de vista de alguém que tinha e tem como olhar externo alunos, colegas em vários cantos do mundo, amigos, amados, amantes, marido etc etc etc. E duas mulheres que sempre me apresentaram uma série de perspectivas sobre a existência que me foram, desde sempre, problemáticas. Sempre foram problemáticas, para mim, suas versões sobre ser isso ou aquilo, seus inúmeros preconceitos e, portanto, suas muitas certezas. Sempre foi problemático, para mim, o ponto de vista delas. Falo dela e dela, duas parcas em minha vida (a terceira é isso, sou eu, meu id). Ambas sempre me amaram muito. Cuidaram de mim na infância e juventude como se eu fosse um objeto a ser acompanhado para o desabrochar em flor. Mas flor daquelas bem cheias de cores e odores, a mais diferente do jardim, aquela flor capaz de orgulhar a dona - e, quem sabe, causar inveja nos (nas) outros (outras) admiradores (admiradoras). Ou seja, nasci para ser isso: objeto com o qual elas (ela e ela, minhas duas parcas) poderiam empunhar espada ou bandeira na manutenção de um território do existir. Do existir como mulher. Essa mulher. Excessivamente essa coisa ostensivamente feminina ("ando sempre com um batom na bolsa") para surgir nos salões de braços dados com um homem (o "meu") com quem colocaria filhotes no mundo. Um capitalismo feminino. Uma acumulação de capital simbólico para o exercício de um poder legitimado nos salões da pequena burguesia. Nasci para tornar-me essa mulher. No entanto, falhei.

Ela e ela ora me enfeitavam, ora me observavam. No processo de crescimento do meu corpo, fui deixando para trás as sapatilhas de balé, as bolsinhas com espelhinhos, a cor de rosa, as pulseirinhas, os diminutivos e os babados. Conforme ia ocupando espaço no mundo, dava passos rumo ao ambiente dos moleques. Queria estar perto dos homens, brincar com eles, sentir o falo, a língua, o prazer deles. Adorava azul, o jeans, o moletom, a jaqueta, o all star. Eu estava era a fim de saber "qualhera", estar com a galera, poder sentar de perna aberta, gargalhar com a boca aberta, ir contra a corrente, ir além da entrada da baía, pegar ônibus de madrugada e, para tanto, queria usar roupas confortáveis, queria passar desapercebida, ser só da turma e com a turma estar no mundo. Queria que meu corpo fosse tocado e admirado, lambido e cheirado. E eram os moleques ao meu redor que me inspiravam esses desejos. Os meus amigos, os melhores. Mas não queria ter que ser de um jeito, obrigatoriamente, para poder alcançar esse meu principal objetivo. Viver meu id, sem lenço e sem documento. Descobri ali o que queria da vida. Conversar, ampliar as ideias, ir além, e isso só era possível escapando desse procedimento para tornar-se mulher. Era preciso estar com os moleques. Era preciso esse não ser. Isso. Meu interesse eram os homens. Me vestia como eles, pois olhava para eles. Queria come-los todos. Estar com eles. Desejava que eles me quisessem como mulher. A mulher que eu era. A mulher era eu. E sou.

Cheguei aos 40 anos. Sou professora. Estou casada. Não penso em filhos, mas se os tiver, farei o que posso para poder continuar a viver bem, então com eles. Gosto da vida. Sinto prazer em estar com pessoas bacanas. Não tenho paciência para preconceitos. Me estimula e agrada muito entrar em conversas, chegar junto. Me incomoda muito encontros casuais que se transformam imediatamente em conversas com pautas. Onde o ego (e o superego) vem na frente. É o caso dela e dela, minhas parcas, as que me tecem o fio da vida. Como é o caso de muitas outras pessoas - amigas, vale dizer. Ela e ela perderam o fio da meada, o bonde da história. Ao menos da minha. Querem saber como está o meu sofá, se ainda está limpo, se tenho usado a cozinha ou comido fora. Quando as vejo, percebo que me olham como se eu pudesse adivinhar a malícia de seus pensamentos. Não consigo entabular tal cumplicidade. E tento fugir. Ou fico ali, radicalmente consciente de que não vai ter jeito de novo. Não vamos conseguir nos atualizar umas das outras. Pois a pauta é ontológica. Trata do ser. Do ser isso que não sou. Do ser delas. E elas têm certeza que sou elas, e um dia vou vingar.

É uma barra sentir-se sendo algo invisível para o interlocutor. Ser e não ser. O que estou sendo é sempre não ser, pois ainda serei, segundo elas.

Devo admitir: isso também é uma forma de amor.