poste ou parede? festa de Natal...
Me sinto emparedada. Eis a lição deste último Natal. Mesmo assim, pintei um poste. Paredes sempre foram algo que eu quis pôr abaixo. Quebrei muitas. Por dentro e por fora. Mas paredes fazem parte da "casa burguesa". E Natal é festa para um certo sentido de família que sempre foi falido pra mim. Eu acho que não fui bem socializada ao conceito de família que tentaram me dar. Porque eu sempre achei que não ia corresponder alegremente às expectativas que sobre mim recaíam vindo da minha família. O horizonte que a família, com seus membros, me apontavam envolviam casamento, filhos desse casamento, permanência (com marido e filhos) no círculo da família e a obrigação (sem contrato assinado) de jamais questionar a proeminência da família. Afeto nunca será projeto.
Daí entra o poste. Dizem que quem fica parado é poste. De fato, o poste tá ali, parado, mas sobre ele podemos projetar zilhões de filmes que se passam em nossas cabeças. Pode-se, inclusive, mijar num poste. Talvez eu tenha me sentido um poste, a vida inteira, mas bem que eu andei em busca de outras projeções sobre mim. Acho que eu reivindico meu direito a ser poste, por ora.
O símbolo de ideia contém a ideia de luz. Ou esta simbolizada, desde que existe a lâmpada, em lâmpada. O poste, pra mim, por isso, simboliza a criação ela mesma! A criação nesse mundo urbano onde poste é peça fundamental de uma infraestrutura que nos abastece de luz e energia elétrica. Criei coisas com esse poste. Criei muitas perspectivas sobre a vida em torno de seu corpo cilíndrico, alto, imponente, concreto.
Minha família, ou melhor, alguns de seus membros mais próximos do cotidiano, como irmãos, mãe e sobrinhos, foram ver o poste. "O poste da Soraya". Maluco beleza é fundamental pra vida nas cidades, ponderei com mamãe. Família é a instituição que congela os sujeitos em um nome com sobrenome e numa classe etária. Há os primogẽnitos, os caçulas, os "do meio", os velhos, os moços... estes dois últimos serão velhos ou moços após alguns falecimentos e alguns nascimentos. Os demais terão esse "tempo" (velhos, moços) congelado ao longo do tempo, já que estão classificados em termos de "ordem de chegada" ao mundo. E é esta classificação que mais se pronuncia para mim, no seio da família, assim como a classificação de gênero. Afinal, eu escapo aos horizontes definidos pela família com relação à realização do que o meu sexo poderia determinar: a realização do gênero feminino de uma certa classe social e a realização dessa 'mulher' com relação ao papel que realmente poderia realizar a família como um todo: o papel de mãe. Não tive filhos, mas tenho um universo de amigos e amigas crianças com quem me dou bem.
Não se pode agradar a todos...
Como forma de organização social, o significado de família com que vivo as maiores tensões e corro todos os riscos de vida deveria ser ressignificado como uma instituição que deveria funcionar apenas até os primeiros anos de juventude de seus novos membros. E deixá-los livres para voar, assim que pudessem!
A culpa me parece ser o sentimento que se celebra nos natais que pude vivenciar até o presente.